5 Lições da Ala Oncológia Infantil
- Sonora Paulista

- 21 de ago. de 2019
- 4 min de leitura
Robson Tonello Vecchi - Musicoterapeuta

O que aprendi sobre resiliência na ala oncológica infantil – Que você pode aplicar em sua vida
Desde o ano passado, tenho a satisfação de levar a Musicoterapia para o Hospital das Clínicas, como parte da Unidade de Pediatria Integrativa. Atendi pacientes de 02 a 18 anos de idade, com diferentes diagnósticos e graus de severidade.
Abaixo, as 5 lições mais importante sobre resiliência que aprendi com essas pessoas (a 5 foi a mais marcante):
1 – Abraçando uma nova realidade
Você já ouviu falar sobre negação? É uma resposta comum quando vivenciamos algo traumático – a perda de um ente querido, o fim de um relacionamento, ou a notícia de um diagnóstico severo. A pessoa nega os fatos para se preservar.
E o que eu vi foi uma recusa absoluta a utilizar esse tipo de mecanismo. Cada paciente e familiar que encontrei estava adaptado ao diagnóstico, com a vida funcional, vivendo da melhor maneira que podia dentro da nova situação.
Isso é o que apelido aqui de abraçar uma nova realidade.
Quanto mais cedo você conseguir fazer isso (como esses pacientes conseguiram), mais estará ativo no processo de recuperação.
2 – Malha social
Uma experiência traumática como essa aproxima pessoas. Amigos, pais, irmãos. Há uma união belíssima para oferecer um suporte ao paciente, assim como uma outra união para oferecer suporte aos familiares do paciente, e é nesse momento que vemos o potencial positivo das interações humanas.
Se você está em um local ruim em sua vida, e especialmente sentindo-se sozinho e incompreendido, é natural que você acredite que as pessoas ao seu redor sejam tóxicas e você esteja melhor sozinho. Eu te garanto: não subestime o poder te uma malha social funcional.
Encontre as pessoas certas, aprenda a interagir com elas, desenvolva suas habilidades sociais um pouco. Sua vida se tornará mais rica, e os problema menores. Afinal, “a amizade multiplica os bens vida, e reparte os males”.
3 – Rotina
Talvez você já tenha ouvido falar que o ponto mais saudável para maioria das coisas seja um balanço adequado entre ordem e caos. Muito caos e você se sente perdido, e muita ordem é uma tirania.
Ao aprender algo novo, por exemplo. Tem que ser fácil o suficiente para que você seja capaz, mas difícil o suficiente para que você se sinta desafiado.
Um diagnóstico severo é uma mudança tão caótica quanto se pode imaginar, tirando a pessoa de quase tudo que lhe é familiar e a submetendo a uma nova vida. E para conseguir fazer esse balanço, a rotina torna-se essencial.
Uma nova rotina torna essa nova vida previsível, na medida do possível. Novos rituais, novos horários, novas atividades... Dão uma sensação de controle, algo inestimável para alguém que teve que se adaptar tanto em tão pouco tempo.
Se você não tem uma rotina básica em sua vida, está com um pé e meio no caos, quase sempre a cair nele. Provavelmente seu humor é desregulado, seu sono é uma bagunça, e às vezes você só percebe que não almoçou quase na hora de jantar.
Não deixe sua vida sair de controle dessa forma. Organize uma rotina básica, ajeite sua vida, faça várias refeições por dia, dedique parte do tempo ao seu corpo (se você não faz nada, dez minutos por dia serão uma melhora enorme), e observe as peças se encaixando aos poucos.
4 – O mito da independência
Nós, seres humanos, precisamos uns dos outros.
Nossa sociedade é tão funcional que nem paramos para reparar nisso. Mas pense no tempo que você leva hoje para fazer uma refeição diferente. Agora imagine a dificuldade que teria para montar esse prato há 300 anos. Era um privilégio de reis, literalmente.
Nós absolutamente precisamos uns dos outros. Cada pessoa é boa em (se tiver muita sorte), 5 coisas, e precisamos de umas 300 coisas diferentes para viver.
Se você conseguir aceitar a ajuda dos diversos “estranhos” ao seu redor com a mesma graça que meus pacientes aceitam da equipe de saúde disposta a cuidar deles, e parar com essa ideia boba de que é capaz de tudo sozinho, sua vida certamente se simplificará muito.
Nós, seres humanos, absolutamente precisamos uns dos outros (sim, de novo).
5 – Guerreiros e guerreiras de todas as idades
Finalmente, te digo que eu não estava nada preparado para isso. E eu deixei essa por último porque é certamente a lição mais importante daqui.
As pessoas que atendi, bem como seus familiares... Absolutos guerreiros e guerreiras.
Brincam, riem, cantam, tiram sarro da minha cara, filmam, compartilham, vivenciam tudo com o coração aberto, e estão sempre prontos para outro round. Nunca dizem “chega”, apenas dizem “mais”.
Há melhoras de uma semana para outra... Mas há também semanas de pioras bruscas. Essas são as mais difíceis. E eu vi jovens, com a consciência tão baixa e tanta dor que não reconheciam aos próprios familiares, mas que pediam mais uma música, e cantavam com o resto de força que tinham.
Se isso não é uma lição a cada um de nós, uma prova da capacidade humana de se adaptar e encontrar forças em si, eu não sei o que é.
A vida não é uma brincadeira, ou uma festa. Se você se deixou convencer que é, tire essa ideia tola da sua cabeça, e acorde antes que seja tarde. Reconheça que você só pode pensar isso porque tudo ao seu redor funciona tão bem (através de sacrifícios pessoais que você nem imagina) que você nem mesmo precisa se preocupar. Nossa realidade é complexa além de possível compreensão. Aproveite enquanto a vida é simples, e transforme o potencial que tem em algo de útil. Nunca deixe os anos passarem para ver o que acontece, buscando experiências efêmeras com pessoas que não te conhecem. Ok, faça um pouco disso também, mas nunca viva para isso.
Faça algo. Qualquer coisa. Hoje. Mas comece.
Lembre:
“Qualquer dia desses o chão vai cair debaixo dos seus pés
Qualquer dia desses o seu coração vai parar e dar a batida final”
(Foo Fighters – These Days)




Comentários